
Um levantamento sobre as candidaturas homologadas e em fase de homologação para as eleições de outubro de 2026 mostra algo raro na política brasileira: uma família inteira formando praticamente uma chapa própria, espalhada por diferentes estados e diferentes cargos. Ao menos seis integrantes do clã Bolsonaro devem estar nas urnas neste ano, do Palácio do Planalto ao Senado, passando pela Câmara dos Deputados.
A candidatura mais visível é a do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), homologado em 25 de julho como candidato à Presidência da República. Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio assume o papel de principal nome da família na disputa nacional, num cenário em que o pai segue inelegível e cumprindo prisão domiciliar, e o irmão Eduardo está impedido de concorrer por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Mãe, irmãos e primo: a família toda na disputa
Ao lado de Flávio, a mãe dele, Rogéria Bolsonaro, teve sua candidatura a deputada federal pelo Rio de Janeiro homologada em 29 de julho, também pelo PL. Aos 70 e poucos anos, Rogéria entra pela primeira vez de forma mais direta na disputa eleitoral, reforçando o peso simbólico do sobrenome na chapa fluminense.
Em São Paulo, quem tenta uma vaga na Câmara dos Deputados é Renato Bolsonaro, também filiado ao PL, com candidatura já homologada. Renato já havia tentado a vida pública em 2024, quando disputou a prefeitura de Registro (SP) sem sucesso. Agora tenta o primeiro mandato como deputado federal, na esteira do capital político acumulado pelo restante da família.
Já em Santa Catarina, dois nomes da família devem ter as candidaturas homologadas até 1º de agosto: Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro e um dos filhos mais influentes nos bastidores da política do pai, tenta uma vaga no Senado pelo estado catarinense. No mesmo estado e na mesma data prevista de homologação, Jair Renan Bolsonaro, sobrinho do ex-presidente, concorre a deputado federal, também pelo PL.
O sexto nome do levantamento é o de Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e viúva política mais ativa do bolsonarismo atual, que deve ter a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal homologada em 2 de agosto. Michelle ainda não confirmou publicamente sua candidatura por meio de nota oficial, mas o nome já circula nos bastidores do partido e vem sendo tratado como certo por aliados. A família ainda soma um sétimo nome ao redor da disputa: Marcelo Bolsonaro, pré-candidato a deputado estadual em São Paulo, embora sua candidatura ainda não conste como homologada nas convenções já realizadas.
Jair e Eduardo fora das urnas, mas não fora do jogo
A ausência mais notada na lista é justamente a dos dois nomes que por anos dominaram o noticiário político: o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro. Jair segue inelegível e em prisão domiciliar, impossibilitado de disputar qualquer cargo neste ciclo eleitoral. Eduardo, por sua vez, foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal em junho de 2026 a quatro anos e dois meses de prisão, decisão que o enquadrou na Lei da Ficha Limpa e o tornou inelegível para outubro.
Apesar de estarem fora da disputa eleitoral direta, pai e filho devem seguir influentes nos bastidores da campanha. Jair continua sendo a principal referência simbólica do movimento que elegeu boa parte dos candidatos da família, e Eduardo, mesmo impedido de concorrer, mantém articulação política ativa, sobretudo na costura de apoios e na comunicação da base bolsonarista.
O fenômeno de uma família disputando simultaneamente a Presidência, o Senado em dois estados diferentes e vagas na Câmara em três estados é incomum mesmo para os padrões da política brasileira, historicamente marcada por clãs regionais concentrados em uma única unidade federativa. No caso dos Bolsonaro, a pulverização geográfica — Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal — sugere uma estratégia deliberada de capilarizar a presença da família em diferentes colégios eleitorais, blindando o grupo político mesmo diante da inelegibilidade de suas duas principais lideranças.
Para o eleitorado que segue fiel ao bolsonarismo, a mensagem que se consolida é a de continuidade: ainda que Jair e Eduardo não estejam na cédula, o nome Bolsonaro aparecerá em praticamente todos os níveis da disputa de outubro, da corrida presidencial às eleições proporcionais. Resta saber se essa pulverização vai se traduzir em força eleitoral concentrada ou se a dispersão de candidaturas pelo país vai diluir o capital político que o grupo acumulou nos últimos anos.
Do ponto de vista partidário, chama atenção o fato de praticamente toda a família seguir concentrada sob a legenda do PL, com exceção das articulações paralelas que a família mantém com outras siglas de direita em estados onde o partido de Valdemar Costa Neto tem menor força. Essa concentração reforça o PL como o principal vetor eleitoral do bolsonarismo em 2026, mas também levanta questionamentos sobre a dependência do partido em relação a um único sobrenome para mobilizar seu eleitorado em praticamente todas as regiões do país. Analistas políticos têm observado que, mesmo fragmentada geograficamente, a família tende a funcionar como uma rede de apoio mútuo nas campanhas, com atos conjuntos, coordenação de agenda e uso compartilhado de estrutura de comunicação nas redes sociais — um modelo que já vinha sendo testado em eleições municipais anteriores e que agora ganha escala nacional.

