
A convenção do Republicanos no Distrito Federal, realizada em 30 de julho de 2026, reuniu em um mesmo palco algumas das principais mulheres da direita brasileira e deixou um recado claro para outubro: o campo bolsonarista pretende eleger uma bancada feminina forte no DF e no Senado. A deputada federal Bia Kicis, pré-candidata ao Senado pelo PL-DF, esteve no evento ao lado da senadora Damares Alves, da governadora Celina Leão e do pré-candidato a vice Gustavo Rocha, e usou o discurso para confirmar publicamente a pré-candidatura de Michelle Bolsonaro ao Senado.
Durante sua fala, Kicis foi direta: “Quero fazer uma menção aqui à minha amiga e colega de partido, que também é pré-candidata, Michelle Bolsonaro”. A frase, dita em tom de apoio entre aliadas, tratou como certa uma candidatura que a própria equipe da ex-primeira-dama ainda trata com cautela nos bastidores — a assessoria de Michelle informou que “só quem fala pela Michelle em matéria de candidatura é ela mesma”, sem confirmar ou negar oficialmente o movimento.
Damares convida Kicis para o Republicanos
O momento mais inesperado da convenção, no entanto, não veio da confirmação sobre Michelle, mas de um convite público feito pela senadora Damares Alves à própria Bia Kicis. Ainda filiada ao PL, Kicis foi chamada por Damares a deixar o partido e se filiar ao Republicanos, legenda que já reúne a senadora e a governadora Celina Leão no Distrito Federal. “Estou te esperando, Bia. Imagina eu, você e Michelle Bolsonaro. Essas três mulheres juntas ajudando Celina e Gustavo a governar o DF”, declarou Damares durante o evento.
A fala expõe um movimento de aproximação entre lideranças femininas de diferentes legendas de direita no Distrito Federal, numa tentativa de somar forças em torno de um projeto comum para outubro: eleger Celina Leão ao governo, garantir vagas no Senado e ampliar a presença de mulheres conservadoras em cargos de peso. Ainda que o convite de Damares não implique mudança imediata de partido — Kicis segue filiada ao PL e é pré-candidata ao Senado pela legenda —, o gesto público durante a convenção de um partido rival sinaliza o tipo de articulação que vem sendo construída entre os diferentes núcleos do bolsonarismo de olho nas eleições.
Celina Leão reforça discurso pela “chapa de mulheres”
Completando o coro de apoio, a governadora Celina Leão também discursou na convenção defendendo a eleição conjunta das candidatas ao Senado pelo Distrito Federal. “Se nós não elegermos as senadoras da nossa chapa, Bia e Michelle, a esquerda vai tentar eleger as delas”, afirmou a governadora, tratando as duas pré-candidaturas como parte de um mesmo projeto político voltado a garantir representação feminina conservadora no Congresso.
A fala de Celina Leão reforça uma estratégia de comunicação que vem sendo repetida por lideranças de direita ao longo de 2026: apresentar as candidaturas femininas do campo bolsonarista como uma resposta direta ao que classificam como avanço de pautas progressistas no Congresso. Ao unir os nomes de Kicis e Michelle Bolsonaro num mesmo discurso de campanha, a governadora busca transformar duas pré-candidaturas ainda em fase de consolidação política em um símbolo de força coletiva do grupo.
Vale destacar que, até o momento da convenção, a candidatura de Michelle Bolsonaro ao Senado pelo Distrito Federal segue sem confirmação oficial por parte da própria pré-candidata ou de sua assessoria direta, ainda que aliados como Bia Kicis, Damares Alves e Celina Leão já a tratem publicamente como certa. Segundo levantamentos recentes sobre as candidaturas da família Bolsonaro para outubro, a homologação formal do nome de Michelle está prevista para o início de agosto, dentro do calendário de convenções partidárias.
O episódio da convenção do Republicanos-DF ilustra bem o momento atual da direita brasileira às vésperas das eleições: um processo de rearranjo de alianças, com lideranças de diferentes partidos — PL, Republicanos e demais legendas do campo conservador — buscando pontos de convergência em torno de nomes femininos fortes, especialmente no Distrito Federal, onde a disputa pelo governo e pelas duas vagas do Senado promete ser uma das mais acirradas do país em outubro. Resta acompanhar se esses gestos de aproximação vão se traduzir em uma aliança formal nas urnas ou se cada legenda seguirá seu próprio caminho até a fase decisiva da campanha.
O protagonismo de mulheres como Bia Kicis, Damares Alves, Celina Leão e Michelle Bolsonaro num mesmo evento também reforça uma mudança perceptível no discurso da direita brasileira nos últimos anos: a construção de referências femininas próprias, capazes de mobilizar eleitoras e ocupar espaços historicamente dominados por lideranças masculinas dentro do próprio campo conservador. Kicis, que construiu carreira como comentarista jurídica antes de se eleger deputada federal, e Damares, ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, são hoje dois dos nomes femininos mais conhecidos do bolsonarismo, ao lado de Michelle, que desde a saída do Palácio da Alvorada tem mantido agenda política ativa e presença constante em atos e eventos partidários pelo país. A convenção de 30 de julho, portanto, não deve ser lida apenas como um evento local de lançamento de candidaturas no Distrito Federal, mas como um retrato de como a direita pretende ocupar o debate eleitoral de outubro também pela via da representatividade feminina.

